É certo que Portugal tem uma cultura de decepção e frustração no que diz respeito ao cinema. A cada novo ano parecem abrir-se novas dimensões de horrendo, surgindo produtos de inimaginável mau gosto, mesmo para as mentes mais retorcidas. Desta vez temos um filme amador, com toda uma estrutura, narrativa e produção de proporções anedóticas, um festival de ridículo que se leva tão a sério que facilmente pulamos de uma situação de escárnio para sentimentos de compaixão pelas mães daquelas pessoas, que almejaram um futuro honroso para os filhos e isto foi o que decidiram fazer da vida. Rejubilai então azeiteiros de Portugal. Labregos do tuning, parolos das centralinas, fatelas dos ailerons, barrascos do rally e da pala do boné branco para trás, a resposta às vossas preces chegou. Um filme de carros, com tiros, porrada e gajas boas a serem vilipendiadas à lei da vara carnuda (leia-se “foder” em linguagem de burgesso).
Já tinha falado neste filme quando saiu o trailer e foi anunciado que sairia para as salas de cinema. Na altura fui fortemente criticado por falar mal sem ver o filme. Mas o certo é que basta ver o trailer para perceber estamos perante um fétido jarrinho de micção. Eu não vi o filme todo e penso que não haverá alma não azeiteira que aguente mais de 20 minutos. A cena inicial é suficiente para perceber a desolação cinematográfica que se apresenta perante a nossa infeliz presença.
Na perspectiva do realizador (que também é actor principal), para fazer um bom filme que apele à massa cinéfila temos que ter os seguintes ingredientes: carros, perseguições despistes, tiroteios, porrada de três em pipa, gajas de armas, sexo (também conhecida como “foda”), gajas semi nuas e nuas, piadas com minis (leia-se o formato de engarrafamento de cerveja e não a namorada do mickey nem o modelo da Morris), musica techno e o incontornável guião de intriga internacional que encerra mistérios dignos do Sargento Saraiva.
Resta-me ainda demonstrar a minha mais profunda repugnância sob a forma de um farto vómito acerca do apoio do Instituto do Cinema e do Audiovisual. Sim, o dinheiro que é de todos nós, daquela gorda fatia de ordenado que os estado nos mama em impostos mensalmente, o IVA que todos pagamos diariamente, passando por toda uma miríade de subterfúgios indecentes para nos sacar o dinheiro sob a forma dos mais improváveis formatos de imposto. Esse mesmo dinheiro que nos faz tanta falta e que acreditamos secretamente possa ser usado para nos tirar desta crise, é usado para promover este sucedâneo de entretenimento, este esgoto a céu aberto que alguém algum dia confundiu com cinema.